Transformando dívida em eficiência: a solução está na estrutura
Reportagem do Valor Econômico traz um estudo da consultoria W1 Business, que revela um sinal preocupante da economia brasileira: muitas empresas de médio porte estão tomando empréstimos não para crescer, mas simplesmente para continuar funcionando. (Médias empresas se endividam para manter operação | Média É Mais | Valor Econômico)
A principal conclusão do estudo revela que entre 31 empresas analisadas (faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 500 milhões), 74% possuíam dívidas e, do total financiado, cerca de 65,5% foi usado para pagar despesas operacionais correntes, formando o que os especialistas chamam de “dívida da sobrevivência”.
Em outras palavras, o crédito deixou de ser uma ferramenta de expansão e passou a ser um instrumento de manutenção do negócio.
Quando empresas passam a contrair empréstimos para financiar despesas operacionais, o problema raramente está apenas na falta de crédito. Na maioria dos casos, há uma combinação de pressão financeira, ineficiência tributária e estrutura societária inadequada que compromete a geração de caixa. Assim, médias empresas se endividam para manter operação.
Nesse contexto, um planejamento tributário e societário estratégico deixa de ser uma ferramenta de economia fiscal e passa a ser um instrumento de preservação financeira. A otimização da carga tributária, o aproveitamento de créditos fiscais, a reorganização societária, a segregação de riscos e o fortalecimento da governança corporativa podem liberar caixa, reduzir passivos, proteger ativos essenciais e melhorar as condições de acesso ao crédito.
Em um ambiente de juros elevados, a empresa que revisa sua estrutura jurídica e fiscal não apenas reduz custos: ela aumenta sua capacidade de investimento, fortalece sua liquidez e diminui a dependência da chamada “dívida da sobrevivência”. Mais do que uma medida de conformidade, trata-se de uma estratégia de geração de valor, proteção patrimonial e sustentabilidade empresarial de longo prazo.
Em síntese: empresas que financiam sua operação com dívida precisam de crédito; empresas que reorganizam sua estrutura tributária e societária precisam de menos crédito. Essa é a diferença entre administrar passivos e construir resiliência.
Na verdade, para muitas médias empresas, o planejamento tributário e societário pode ser tão importante quanto a renegociação da dívida, embora não seja uma solução milagrosa.
O planejamento tributário e societário atua em três frentes principais:
- Preservação de caixa (o problema central)
Pela própria reportagem, o problema não é a ausência de faturamento, mas a insuficiência de liquidez e capital de giro. Empresas estão tomando empréstimos para cobrir despesas correntes. Médias empresas se endividam para manter operação
Nesse contexto, um planejamento tributário estratégico pode:
- reduzir legalmente a carga tributária efetiva;
- recuperar créditos tributários acumulados;
- otimizar aproveitamento de prejuízos fiscais;
- reorganizar operações para reduzir incidências fiscais desnecessárias;
- melhorar o fluxo de caixa tributário.
Muitas vezes, uma economia tributária de 3%, 4% ou 5% do faturamento representa mais caixa do que uma linha de crédito bancário.
2. Reorganização societária para reduzir risco
O endividamento excessivo costuma contaminar toda a estrutura empresarial.
Uma reorganização societária pode:
- separar ativos operacionais de ativos patrimoniais;
- criar holdings patrimoniais;
- segregar unidades saudáveis das unidades deficitárias;
- facilitar a entrada de investidores;
- permitir governança mais profissional.
Por exemplo, uma empresa logística que possui frota e imóveis dentro da mesma sociedade operacional fica muito mais exposta em caso de execução ou recuperação judicial.
Estruturas societárias adequadas permitem maior proteção patrimonial e melhor acesso a crédito.
3. Melhor qualidade do financiamento
Esse ponto costuma ser pouco discutido.
Bancos e investidores não olham apenas o balanço.
Eles analisam:
- governança;
- estrutura societária;
- contingências fiscais;
- passivos ocultos;
- organização do grupo econômico.
Empresas com estrutura societária clara e passivos tributários controlados costumam negociar crédito em condições melhores.
Em outras palavras:
O planejamento tributário reduz a necessidade de capital.
O planejamento societário melhora o acesso ao capital.
Na prática
Como regra geral, quando uma média empresa entra no ciclo descrito pela reportagem, normalmente existem quatro problemas simultâneos:
- Capital de giro insuficiente.
- Estrutura tributária ineficiente.
- Governança societária deficiente.
- Financiamento inadequado.
A maioria dos empresários enxerga apenas o quarto problema e procura um novo empréstimo. Mas frequentemente a solução está nos três primeiros.
Para as empresas descritas na reportagem, verificamos que um planejamento tributário, societário e financeiro integrado pode reduzir significativamente a dependência de crédito de curto prazo.
Mais do que economizar tributos, o verdadeiro valor está em transformar passivos fiscais, estrutura societária e governança em instrumentos de geração de caixa e redução de risco, atacando justamente as causas que levam a empresa a contrair a chamada “dívida da sobrevivência”. Médias empresas se endividam para manter operação.
Aliás, esse cenário representa uma oportunidade relevante para os executivos e empreendedores avaliarem e não optarem por uma recuperação judicial, mas por uma atuação preventiva de reestruturação tributária, societária e patrimonial antes da crise se tornar insolvência.
[1] Advogado, Contador, Economista, pós-graduado _– MBA – Contabilidade, Auditoria e Planejamento Tributário – USP; Especialista em Direito Tributário – Centro de Extensão de Estudos Universitários – SP; Mestrando em Direito Político e Econômico – Universidade Mackenzie, São Paulo-SP; Mestrando em Gestão de Negócios – FIA/USP – Fundação Instituto de Administração, São Paulo-SP; AMP – Advanced Management Program (2014) – IESE – University of Navarra – Barcelona, Espanha; Value Creation Through Effective Boards – IESE – Barcelona-Espanha; Mestrando em Economia e Finanças – FGV – São Paulo

